domingo, 19 de agosto de 2012

Medicina da Arara - Samuel Souza de Paula


MEDICINA DA ARARA


Hoje perguntei ao meu pai o que ele gostaria de receber de presente nas celebrações do “Dia dos Pais”, e ele me disse: “O mais importante de tudo: A amizade.” Realmente os amigos são grandes presentes na vida, algumas vezes chegam de mansinho com um lindo laço colorido de afinidade e outras com um nó marcante que depois de desatado mostra todo seu conteúdo verdadeiro. Amigos são encontros que nos engrandecem, que faz das nossas vidas o que é pra ser, um presente.

Há algumas horas saboreei alguns morangos silvestres, antes das gravações do programa “Sinais de Fumaça”, eles me trazem a lembrança dos amigos da infância e as muitas vezes em que choramos de rir com fatos engraçados e outras em que choramos desiludidos e nos consolamos diante das dificuldades e perdas. Como dizíamos em tom de brincadeira: “Ainda temos a fogueira e podemos fazer história”. Gostávamos de nos reunir ao redor da fogueira, falar da vida, contar piadas e transmutar as muitas bobeiras. No final, comer morangos, assar batata-doce e desejar que as coisas dessem certo no dia seguinte. Posso sentir que ainda temos uma fogueira.

A gravação de hoje teve o enfoque nas Danças Circulares Sagradas e pude ver nos olhos das convidadas uma chama acessa o fogo do coração e a luz da sabedoria. Em suas falas senti uma amizade com a vida, com as pessoas, com o círculo e é claro com o Sagrado. No local tinha uma Arara e ela disse “Oi!”. Talvez como um sinal de que quisesse participar das gravações ou simplesmente dizer que também estava presente. Vocês sabem que gosto das práticas bioxamânicas e nesta visão de mundo tudo é sagrado, possui uma essência, uma mensagem, uma consciência. A Arara não é apenas uma arara, mas uma medicina peculiar, assim como os amigos.

A Medicina da Arara é a medicina do arco-íris, este dia foi um dia arco-íris, com muito aprendizado, muitos lembretes, muitos presentes. Podemos ver que no círculo da vida existem pessoas-cores de diversas tonalidades, com suas histórias, suas dores e amores, dançando, trazendo em seus passos sonhos e intenções.

Sabe, tenho aprendido que nada é por um acaso, nem tudo está perdido no tempo e no espaço, existe um sentido que às vezes nem faz tanto sentido naquele momento, mas posteriormente vemos que é bom. Que é bom ser humilde e não achar que é o “rei da cocada preta”, que estamos aprendendo. Podemos até saber algumas coisas, mas dificilmente saberemos tudo sobre tudo. Tenho aprendido a reconhecer as muitas línguas e culturas e a respeitar as traduções das linguagens humanas. Algumas vezes parece que eu nada entendo, peço ajuda e acima de tudo, mantenho meu coração aberto.

Sim, é importante ter suas preferências, gostar de uma cor, mas desvalorizar todas as outras, penso, não ser uma atitude muito inteligente. A Arara nos ensina que a vida é feita de arco-íris e nos convida a fazer uma prece, um rito de cura, evocarmos a energia do Sol.

Lembre-se: Cada cor possui um poder curador, cada pessoa uma medicina. No contexto xamânico a Arara é uma ponte entre o “Povo Pássaro” e os “Duas Pernas” (o ser humano). E de certa forma somos pontes também, pontes que conectam corações. Nas Danças Circulares Sagradas em diversos momentos este sentido está presente, é cultivado e sentido.

Nossas mãos e braços não são apenas mãos e braços, é a extensão do coração. Nosso coração se alonga para tocar o alongamento de outros corações no alinhamento espiritual. Quando estamos de mãos dadas em roda, estamos reafirmando a chama sagrada, um símbolo, uma força, um só coração, “ainda temos a fogueira e podemos fazer história”. Inclusive o centro da roda simboliza o próprio fogo, o Sol central.

A Arara pede para sermos amigos dos espíritos das palavras, que tem como aliado os “Ventos Ancestrais”. Ou melhor, ela instiga uma comum, única ação que possibilita relações na vida, a Arara preza uma boa comunicação. Que possua integridade, verdade e compaixão. Cada palavra pode despertar uma cor, uma lembrança, um sonho, uma solução, talvez por isso ela tenha pedido para evocarmos a energia do Sol, para nos inspirar na chama que ilumina o céu, nos lembrar de que o momento é de cultivar a chama que nunca se apaga, a alma, a sabedoria do coração.

Desejo que caminhe as suas palavras, escreva a sua história e tenha uma boa vida!

Mitakuye Oyasin! “Por todas as nossas relações!”

Samuel Souza de Paula
www.espiritualidadenatural.blogspot.com
Fotografia: Samuel Souza de Paula

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